Cria Arquitetura | Imprensa : Revista Prime nº5

Revista Prime nº5

Revista Prime nº5

Um convite à SUSTENTABILIDADE

Por Alexandra Dias Fotos divulgação e Fábio Pinheiro

Opção de quem quer nadar a favor da correnteza, as casas sustentáveis são hoje uma alternativa econômica, confortável e inteligente, se o projeto é feito por um profissional especializado. Ainda existe muita especulação quanto ao que é realmente ecologicamente correto e por isso a Revista PRIME abraçou a causa e desmistificou uma série de pontos para que você, leitor, tenha ferramentas para pensar nessa possibilidade, na hora de construir, ou reformar. A urgência por práticas mais sustentáveis faz com que o assunto esteja entre os mais pautados, seja nas publicações noticiosas, seja nas mesas de bar. Sem exagero algum, não temos opção a não ser repensar nosso modo de viver, no sentido de impactar menos o meio em que vivemos.

No filme “Uma verdade inconveniente”, o ex- vice-presidente norte americano Al Gore aponta que o acúmulo de gases na atmosfera que desencadeiam o efeito estufa, pode provocar um aquecimento de 1 a 2ºC na temperatura média do planeta e uma elevação de 0,2 a 1,5 metro no nível dos oceanos.
O grande agente causador desse aquecimento, em 65%, é o CO², o dióxido de carbono, fartamente lançado à atmosfera nas atividades humanas, desde as mais corriqueiras, às mais elaboradas.

Atualmente, considerando o aumento da produtividade da Índia e da China, o nível de emissão desse gás cresce em média 8 bilhões de toneladas por ano. As grandes mudanças climáticas, embora também tenham uma ocorrência espontânea que independe da influência humana, vão se potencializar, ou não de acordo com a redução dessas emissões nos próximos anos.

Construção Sustentável é a única saída.

Vendo por esse prisma, a construção civil brasileira deverá passar por uma revolução de hábitos, processos, métodos e qualificação da mão de obra. Um setor tão impactante na nossa economia e tão essencial para a sociedade, deve avançar no sentido de pensar os projetos como um ciclo, contabilizando a emissão de carbono em todo o processo, no que diz respeito ao uso de ferramentas, na escolha dos materiais para chegar ao mínimo de emissão possível durante a obra e no uso diário do imóvel, segundo nos explica o arquiteto e engenheiro Ewoud van Schaijk MSc. (vide entrevista em Profissionais em Brasília). Soma-se a esse pensamento, a escolha por matérias reutilizáveis, para que, se o imóvel passar por reformas ou até mesmo por uma demolição, o impacto o seja menor possível.
Para nos ajudar a entender e ver que é mais simples do que parece, começar a pensar num projeto de construção sustentável, pontuamos os principais aspectos que devem, necessariamente, ser levados em conta para quem vai construir.

Qual a “vocação” do terreno

A escolha do terreno é determinante. O projeto deve sempre partir desse princípio. Se um terreno é íngreme, a casa deverá ser projetada de acordo com o declive, aproveitando os níveis, deixando de lado a possibilidade de aterrar e adequar a um projeto de uma casa plana. Escolhas erronêa como essa pode promover um assoreamento no rios mais próximos, manejo excessivo de terra desnecessariamente, já que existe a possibilidade de fazer o projeto em níveis, acompanhando o terreno ingreme.

Sol na medida certa

Utilizar a máxima incidência do sol, a ventilação natural do ambiente, a cobertura de plantas para conservação térmica, segundo a professora, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade da Universidade de Brasília Marta Romero, são os princípios da climatização passiva. Segundo ela, sustentabilidade remete a ideia de otimizar tudo que se tem depois disso é partir para acessórios elétricos que complementem a capacidade natural do local de iluminar e ventilar.
Para tanto, a observação do posicionamento do sol nas faces do terreno é determinante para se obter a maior captação de luz natural com a menor incidência de calor (radiação) possível.

A indicação é de que o sol mais forte deverá incidir nos locais de baixa permanência da casa, ou “de transição”, como no caso dos corredores e áreas de serviço. Para sala de estar e cozinha, o interessante é o sol de menor incidência, ou seja, pela manhã. Isso, porque a 15 graus do Equador, temos um posicionamento predominante no ponto nordeste. O sol em Brasília nasce no leste, seguindo para o norte e oeste. Segundo a pesquisadora, as faces de um imóvel deveriam ser diferentes, de acordo com essa leitura da incidência. E, a partir disso, é possível calcular, qual o tamanho da abertura ideal de uma janela, para que a luz entre, suprindo a necessidade daquele ambiente, sem super aquecê-lo, dispensando ou reduzindo o uso de ar condicionado ou demais aparelhos de refrigeração.

Nesse sentido, o paisagismo também tem papel fundamental. Para se ter uma idea, de uma super quadra para outra, em decorrência do tipo de vegetação usada, a temperatura pode variar de 4 a 5 ºC. A escolha por palmeiras não proporciona sombra suficiente para compensar a incidência solar da capital, ressalta Marta.
Preservar a umidade do terreno, garantindo a infiltração da água no solo, que recarrega os lençóis freáticos, conseguindo um ganho em umidade do ar, tudo isso é garantido com um bom projeto paisagístico, já que as árvores de raízes profundas são as responsáveis por essa “fixação” maior da umidade no terreno. As outras coberturas mais baixas, podem ainda absorver a água prontamente, assim como no sistema venoso, com as artérias e os pequenos vasos.

Tradicionalmente, na Europa, um projeto leva em torno de oito meses para ser finalizado, ao passo que a obra se conclui em seis. Tradicionalmente no Brasil, o projeto leva três meses e uma obra um ano. Pensar e planejar é a palavra de ordem.

Todas as características, do terreno, da cidade, do clima, tudo deve ser persistentemente observado na confecção do projeto, para que a casa “agrida” o menos possível o local onde será fixada. Dessa forma, evita-se o assoreamento causado pelo transporte de grandes quantidades de terra e extração de rochas ou cobertura vegetal. Além disso se economiza com de matérias e investimentos desnecessários.

Casa Solar (Capa)

Um concurso promovido pelo Instituto de Arquitetura Avançada de Catalunha deu vasão à criação de uma Casa Solar que reuniu aconchego, sustentabilidade e inovação. A casa produz três vezes a quantidade de energia que consome despertando interesse dos mais de 20.000 visitantes que percorreram as intalações.
Com muitos apelidos que vão desde “casa amendoim”, “submarino cor de canela”, “Zeppelin arborizada”, até “barriga de baleia”, a Casa Solar produzida pelo Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha recebeu prêmio do Solar Decathlon Europe. Até o Príncipe Philip declarou que a casa parecida um barco.
O fato é que o projeto reuniu sustentabilidade, criatividade e beleza, numa proporção inegualável, introduzindo importantes contribuições tecnológicas como os painéis solares flexíveis mais eficientes do mundo. Realizada com tecnologia espanhola e norte-americana, com arquitetos especialistas de mais de 20 paises, a casa despertou grande interesse dos visitantes e do mundo.

Daniel Ibañez, Co-Diretor do projeto, destaca que a proposta era fazer uma casa para viver e não servir como um demonstrador de tecnologias. Os resultados deu certo porque ela é um exemplo concreto de sustentabilidade

Devido ao seu sucesso estão disponíveis várias dimensões (de 12 a 96 m²), Com o custo mínimo de 45.000 €. Já existem vários pedidos de reserva, confirmando o interesse do público. O site para conferir mais detalhes e modelos da Casa Solar é o www.fablabhouse.

O escritório do Cria Arquitetura sediado em Campinas,São Paulo, ocupa um antigo sobrado da década de 30.
As características originais da construção foram mantidas, tanto na fachada, quanto internamente, onde o piso em taco e a escada de madeira foram recuperados.
Foi feito um retrofit para tornar a edificação mais eficiente em relação ao consumo de energia e água. As torneiras foram trocadas por peças com controle de fluxo e sensores.
As antigas válvulas de descargas foram substituídas por caixas acopladas de fluxo duplo. Dentro do conceito de recuperação e reaproveitamento, grande parte do mobiliário foi elaborado com madeira de demolição ou proveniente de poda urbana, utilizaram ainda várias peças de brechós.
A fachada foi pintada com tinta de terra e as esquadrias com esmalte eco a base dágua.
A recepção também foi pintada da mesma forma sendo que o seu mobiliário foi feito com madeira lyptus e tamburato. Na parede de entrada um painel abriga publicações.
A iluminação da estante foi criada em fitas de led. Todos os tecidos são naturais, de seda, algodão orgânico ou de linho.
A sala de reunião recebeu revestimento de tinta de terra mas dessa vez com aplicação lisa e finalização em cera de carnaúba. A mesa foi confeccionada com “madeiras do projeto madeira urbana”.

Apartamento Jovem

Outro projeto de adequação do Cria Arquitetura é a integração cozinha, sala de jantar e estar. criando um ambiente único, onde a peça chave é a grande mesa de jantar em madeira de demolição, que serve também de apoio pra o preparo dos alimentos. No lugar das tradicionais cadeiras, foram projetados bancos, de demolição para acomodar mais convidados e dar um ar mais descontraído a sala. Cortinas, capa de sofá e almofadas em algodão, garantem o conforto da moradora. O tapete foi substituído por um tatami de palha de arroz dando um toque oriental ao local.
Objetos pessoais, como quadros, fotos e peças especiais trazidas de viagens, dão identidade ao ambiente, sempre adquiridos de forma consciente e solidária. O bambu aparece em vários objetos decorativos, como vaso, bandejas e baús, uma vez que ele é um material que permite diversas formas de aplicação.
Na cozinha o destaque é o painel feito em azulejos de demolição, material que seria descartado e está sendo reutilizado. Todos os potes para mantimentos são de vidro reciclado, uma ótima opção de consumo.

Residência Marambaia - Cria Arquitetura

A cidade de Vinhedo, com sua localização privilegiada, a pouco mais de 70Km de São Paulo e a menos de 20Km de Campinas, possuí uma grande quantidade de condomínios e é o cenário ideal para residências de fins de semana.
Construída no Residencial Marambaia em um terreno de 1200 m2 esta casa teve seu projeto norteado pela topografia e por seu entorno. Foi implantada seguindo as curvas de nível, em ângulo de 45°, diferentemente das residências vizinhas, o que possibilitou grandes aberturas, sem comprometer a intimidade da família.
O programa divide-se em três níveis para um melhor aproveitamento do terreno e separação dos usos. Os proprietários queriam a área de lazer separada das funções da casa e maior privacidade para os dormitórios, que foram privilegiados pela vista da área de proteção ambiental e sua mata nativa preservada.
Então no pavimento inferior, próximo ao nível da rua, piscina, churrasqueira, home theater e a área de lazer. No térreo, foram projetada garagem, cozinha, sala jantar, sala de estar e serviços.
Os dormitórios que ficam no nível superior, são unidos por um corredor com cobertura transparente essa solução facilita a iluminação dos cômodo que foram planajados para proporcionar total conforto de seus moradores.
Uma das características marcantes do projeto é o bom aproveitamento da iluminação natural, que amplia os ambientes, favorecendo a redução do consumo de energia. Decks de madeira certificada estendem-se ao redor da construção, criando varandas suspensas nas áreas de difícil ocupação.
Tecnologias mais sustentáveis como coleta de água de chuva e aquecimento solar foram aplicados.Além disso a residência possui horta orgânica e composteira.
O projeto teve seu desenvolvimento em todas as etapas até a conclusão do design de interiores. Paisagismo feito em colaboração com o Engenheiro Florestal Rodolpho Schmidt.