Deus não é só brasileiro

Este texto foi escrito pelo marido da Maira, Rodolpho Schmidt, e publicado pelo jornal Correio Popular de Campinas no caderno de Meio Ambiente. Rodolpho é engenheiro florestal e sua empresa, a CBFT (companhia brasileira de florestas tropicais), é parceira do Cria e responsável pela compensação de carbono de nossos projetos.

DEUS NÃO É SÓ BRASILEIRO

por
RODOLPHO B. DO AMARAL SCHMIDT

O ditado “Deus é brasileiro” se criou devido ao ambiente natural brasileiro, que sempre foi um dos mais equilibrados e dos mais dóceis para a sobrevivência humana.
Já o Diabo, talvez morasse nos países de clima hostil, onde a população era obrigada a se organizar para não morrer de fome, de frio ou calor, que optava pelas guerras, buscando conquistar terras vizinhas para garantir o abastecimento de suas populações.
Lembremos da fábula da formiga e da cigarra. A cigarra cantava no Verão ao invés de trabalhar e se organizar. Então acabava pedindo auxílio à formiga para não morrer de fome e frio no Inverno. Já a formiga, muito organizada e prevenida, trabalhava no Verão para garantir sua existência no Inverno, alertando a cigarra do risco que ela corria.
Esse conto nunca fez muito sentido para os brasileiros, principalmente para os índios. Quando deram espingardas para os índios, os homens brancos acreditaram que iriam estimular a caçar mais e estocar alimentos. Não havia lógica neste pensamento de inércia de uma cultura exótica. Os homens brancos se surpreenderam com a atitude dos índios, que caçaram mais rápido e abateram a mesma quantidade de costume, e com isso tiraram mais tempo para o lazer. Sábios índios eram conscientes de que a natureza estava lá, pronta para prover o necessário em qualquer época do ano.
Com todo o avanço tecnológico nos países de clima hostil, foram criados pelo mundo afora vários “Brasis”. Lugares inóspitos que, graças à tecnologia e à globalização, ligados por uma rede de comércio internacional, podem oferecer à sua população a sensação que experimentamos por aqui. Sensação de fartura em qualquer época do ano. Basta apertar alguns botões ou possuir um cartão mágico.
Hoje, Deus é do mundo, e o mundo precisa aprender a conviver com ele jogando a favor. Domesticando os invernos rigorosos e os climas inóspitos, as guerras e a escravidão se tornam desnecessárias; Deus se faz presente com a paz da fartura.
Quando se tem bananeiras, pomares e florestas com frutos apodrecendo no pé, é que as pessoas aprendem a dividir, a distribuir. Que brasileiro não gosta de distribuir frutas das árvores do seu quintal ou de seu sítio para os amigos, parentes e vizinhos?
Concordo que ainda existe muita pobreza, muita terra hostil, porém pobreza de verdade só ocorre nos países subdesenvolvidos, onde clima e política fazem o papel de Diabo.
A miséria do inverno, para os países desenvolvidos, acabou há décadas e o que sobrou como herança é o medo, o temor do inverno, o mesmo temor que impedia a formiga de cantar. Esse medo ainda deixa os países desenvolvidos de clima inóspito atordoados, como pais que se deparam com a independência de seus filhos, e querem proteger algo que não precisa mais de proteção.
O povo brasileiro precisa ensinar ao mundo como se vive quando temos Deus jogando a favor. O fato de sediarmos uma Copa do Mundo seguida de uma Olimpíada mostra que o mundo humildemente pede nossa ajuda. Só que, para ensinar, temos que fazer nossa lição de casa. Mesmo sem viver invernos rigorosos ou secas intermináveis, precisamos de organização.
No Brasil, ao invés de se impor na forma de clima hostil, de guerra, o Diabo apareceu em uma das suas faces mais asquerosas, na forma de corrupção. Como diria o ditado, corpo desocupado e mente vazia, casa do diabo. Deus é brasileiro e o Diabo também. O mundo precisa aprender a viver em paz com a fartura e os brasileiros a se organizarem na fartura. Só assim poderemos exorcizar o mundo.
Uma política híbrida que misture o jeitinho brasileiro e a organização metódica dos países desenvolvidos pode ser o futuro ético da ecologia e da economia mundial.
Torço para que os bons pensamentos ocupem a mente dos dirigentes mundiais nas próximas semanas em Copenhague e que esses pensamentos frutifiquem ações concretas para a evolução mundial.
Não podemos abandonar o paraíso que está se formando e pode se concretizar na Terra novamente, em troca de uma maçã.

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